quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

FILME: Trash Humpers



Desenterrado da paisagem escondida do pesadelo americano, Trash Humpers acompanha um pequeno grupo de mascarados parasitando através das sombras e margens de um universo desconhecido. Cruelmente documentado pelos integrantes, seguimos as ações chocantes desses verdadeiros sociopatas como nunca visto antes. Habitando um mundo de sonhos partidos e além dos limites da moralidade, eles se chocam com uma América dividida. No limite de uma ode ao vandalismo, este é um novo tipo de horror, palpável e cru.
“Trash Humpers” é um vídeo caseiro, realmente feito em fundo-de-quintal. Filmado em formato VHS, traz propositalmente as imperfeições do vídeo: chuviscos, riscos, estática, trepidações, letreiros “REC” ou “PLAY” eventualmente no canto da tela, como se estivéssemos assistindo ao filme nos velhos VCR.
A narrativa, aliás, segue o formato de vídeos familiares documentais, e não por acaso o filme de ficção levou um prêmio para documentários no último festival de Copenhaguen. Só que a “família”, os Humpers, eles não são propriamente familiares. Vestindo máscaras que remetem a Freddy Krueger, as criaturas esbanjam gritos e risadas débeis mentais, gesticulam obscenamente, vandalizam aparelhos eletrônicos, andam de bicicleta arrastando bonecas, dançam e brincam com três prostitutas seminuas, repetem bordões desconexos, soltam bombinhas, erram pela cidade e, sobretudo, numa espécie de refrão entre as vinhetas, estupram depósitos plásticos de lixo, árvores e caixas de correio, balançando a pélvis para frente e para trás, urrando e rosnando.
Montadas pictoricamente, as seqüências ordenam-se como um tableau, sem linearidade. Assim como em “Gummo”, prevalece a estrutura de vaudeville, de espetáculo diversificado em que os personagens exibem-se para a câmera, que também é personagem. Daí a sucessão de vinhetas típicas do vaudeville americano: sapateado, piada, freak show, declamação de poesia, comédia pastelão etc.
Se por um lado o filme consegue, pelo conjunto, construir uma estética própria, na unidade do estilo subcultural, grosseiro e estúpido, por outro não vai a lugar algum, nem tampouco busca construir sentidos ao redor desse “lugar algum”. Quando, num ponto de rara inteligibilidade verbal, dirigindo um carro pela cidadezinha do interior, um dos Humpers diz sentir a “dor dos que vivem nessas casas, sem ver nada, com filhos pra cuidar”, a crítica à banalidade e ao vazio existencial soa simplória – ainda mais na boca de um cineasta já no quarto longa-metragem. Além disso, como cinema provocativo, “Trash Humpers” abusa da vagueza e dispersão, dissolvendo a produção de enunciados num mockumentary sem vigor.


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