terça-feira, 14 de maio de 2013

A Verdadeira História da Cinderela

 


Cinderela é um conto bastante antigo, com versão grega antes de Cristo e registros na China nos anos 800. Acredita-se que é a história com mais versões. Em muitas delas, Cinderela foge de seu pai, que quer casar-se com a própria filha pois esta lhe lembra sua falecida esposa.

    Assim como A Bela Adormecida, as duas versões mais conhecidas da história foram de Charles Perrault e dos Irmãos Grimm. A versão que conhecemos e que a Disney usou tem mais a ver com a de Perrault, que possui uma fada madrinha que transforma uma abóbora em carruagem. 

Versão dos irmãos Grimm: 

"Pai, mãe e filha eram uma família feliz até que a mãe ficou muito doente. Ela chamou a filha e disse-lhe para plantar uma árvore em seu túmulo, e sempre que precisasse de algo, fosse lá chacoalhar a árvore. Ela plantou e regou com suas lágrimas. Algum tempo depois o pai se casou com outra mulher, que já tinha duas filhas más que apelidaram a menina de Cinderela. A madrasta logo botou a menina para trabalhar como empregada.

      Um dia, o rei anunciou 3 bailes e Cinderela foi obrigada a ajudar as irmãs a se arrumar para o primeiro baile. Ela não tinha vestido e tinha que separar lentilhas antes que as irmãs voltassem. Depois que elas sairam para o baile, dois pássaros bateram na janela e se ofereceram pra ajudar Cinderela com as lentilhas. No dia seguinte as irmãs contaram do baile para Cinderela (que tinha visto tudo da janela). E na mesma noite, teve outro baile. Dessa vez Cinderela não pôde ir pq teve que separar sementes. Os pássaros novamente a ajudaram.

      Quando eles acabaram, os pássaros disseram pra ela ir ao túmulo da mãe, ela sacudiu a árvore e ganhou um esplêndido vestido prata com acessórios. Mas ela tinha que voltar antes da meia-noite. Ela voltou pra casa e encontrou uma carruagem com serventes e cavalos para levá-la ao baile. Assim que dançou com ela o príncipe percebeu que ela seria sua esposa. Antes da meia-noite ela voltou para casa.

     No dia seguinte as irmãs más contaram sobre a misteriosa princesa que dançou com o príncipe. E na mesma noite haveria o 3º baile. Cinderela teve que ficar separando ervilhas e novamente os pássaros a ajudaram e ela chacoalhou a árvore de sua mãe.Dessa vez, Cinderela ganhou um vestido dourado com pedras preciosas e sapatilhas feitas de ouro. O príncipe já a esperava na escadaria e dessa vez fez muitas perguntas à seu respeito.Cinderela quase perdeu o horário e teve que sair correndo, perdeu um dos sapatinhos e ainda perdeu a carona, ficando no meio da rua com suas roupas velhas.O príncipe não a viu, mas encontrou seu sapatinho de ouro e proclamou que se casaria com a pessoa cujo pé coubesse nele.Chegou a vez das irmãs experimentarem. A madrasta as chamou e disse que se o sapatinho não coubesse, elas deveriam usar uma faca e cortar um pedaço de seus pés. A irmã mais velha experimentou e não serviu, então cortou seu calcanhar e o sapatinho serviu. O príncipe já estava levando ela para o castelo quando os pássaros amigos de Cinderela cantaram dizendo que tinha sangue no sapato. O príncipe viu e levou a impostora para casa.

      Então a segunda irmã experimentou os sapatos e precisou cortar os dedinhos para servir. Novamente o príncipe estava levando ela pro castelo e os pássaros deduraram o sangue. O príncipe voltou para a casa e perguntou se havia outra garota. A madrasta não queria, mas ele a fez chamar Cinderela. O sapatinho serviu e ele reconheceu sua noiva. Eles vão se casar e quando as irmãs vão para assistir, os pássaros bicam seus olhos e elas ficam cegas."
 
Análise do conto Cinderela:

            A história de Cinderela é muito antiga, não sendo possível precisar onde surgiu visto que perpetuou-se através da narrativa oral. Sabe-se, porém que foi essencialmente contada na Europa, época em que não havia luz e os serões noturnos eram a diversão da época. As histórias, então, agradavam, distraíam, alegravam. Naturalmente, com o tempo, muitas histórias modificaram-se até que pudessem ser registradas no papel, porém nunca perderam o divertimento, a magia e o encantamento, tendo sua presença registrada no imaginário infantil até os dias de hoje.
            Cinderela é um conto de fadas. Os contos de fada possuem muito simbolismo, apresentam a busca pela felicidade, encontro do amor, da riqueza e um “que” de magia, e é claro, uma dificuldade a ser vencida. Fadas, duendes, bruxas, animais que falam, poderes extraordinários, sapos que viram príncipes... todos esses fatores interagem com o nosso imaginário a ponto de torcermos pela vitória dos personagens bons. No imaginário infantil feminino, Cinderela é uma dos primeiros contos de fada a ser aprendido e sonhado.
            Perrault, seguido pelos irmãos Grimm no século XIX recolheram os contos de fadas da narrativa oral e os publicaram, seguidos de outros pesquisadores que também passaram a valorizar as histórias do povo.
            Tratando as especificidades de Cinderela, sabe-se que sua origem mais remota é uma versão contada na China, país no qual os pés pequenos são considerados um sinal de beleza. Quem introduziu a presença textual de uma fada madrinha foi Perrault, visto que anteriormente, como no texto em questão, Cinderela recebe a ajuda de sua mãe , cujo o espírito se materializa sob forma de animal. Na versão dos irmãos Grimm, é que a história é contada como a do texto que por ora analisamos. Essa versão não se propagou tão intensivamente por se julgar durante muito tempo que possuía elementos muito agressivos e violentos para serem contados aos infantes, visto que toda  leitura interge com a cultura e os esquemas dominantes de um meio e de uma época.
            A simbologia presente neste texto é riquíssima. O sapato não nos interessa apenas pelas características físicas, mas subjacentes a ele porque representa a liberdade, o caminho percorrido da infelicidade à felicidade, o símbolo aqui serve para essa dimensão diacrônica “ligando os mundo físicos e metafísicos”. Se tomarmos o sapato como um elemento transformador, ele permaneceu na simbologia social para demonstrar que é possível a realização de um sonho, da ascensão social, perde-se o sapato, mas tem-no de volta por merecê-lo.
            Ao aplicarmos a psicanálise presente nos contos de fadas, segundo Bettelheim (2009) e Corso , poderemos compreender muitos significados presentes em nossa própria vida, assuntos intrínsecos e aliados à própria psiquê humana: angústias, dificuldades do crescimento, alegrias e dramas da infância. Os contos de fadas ajudam a compreender os medos e preparar-nos para o entendimento do mundo adulto. Segundo o autor Bettelhein o conto Cinderela “tem a concretude de abranger as fantasias, atenuando os conflitos do relacionamento familiar e da vida, apoiando as crianças a enfrentarem suas dificuldades”. Nossa vida, é composta de altos e baixos e de inúmeras situações em que a humildade, o politicamente correto, o ser verdadeiro, a moral e a ética devem prevalecer, ou seja, de uma forma simples, relata o bem e suas ações, o mal e suas ações. Para Bettelheim, a personagem em todas as suas versões sofre com a falta de amor familiar, sendo que antes da morte de sua pai e posterior casamento de seu pai, ela o tinha. O desprezo e a hostilização também são marcantes, assim como o resgat do amor após ser encontrada pelo príncipe.
            A rivalidade fraterna é constante, quer na dependência das irmãs dos cuidados maternos, na permanência no mundo infantil quando suas atitudes são motivadas por outra pessoa, quer na independência de Cinderela,que já demonstra traços de moça. Rivalidade presente inclusive nas mutilações motivadas pela mãe das irmãs e na simbologia de feminilidade do pé pequeno de Cinderela e pelo fato de a passagem  da infância para a vida adulta ser tratada socialmente pelo direito de usar sapatos altos.
            O homem permanece nulo no casamento, mesmo pensando se tratar de Cinderela não toma partido “para não brigar com a esposa”, ele é colocado então na posição daquele que não quer brigar, enquanto a mãe preza pelo bem-estar dos filhos a todo custo, nem que seja para aparecer após a morte.
            Três sapatos, três irmãs, três fases da vida, santíssima trindade, pirâmides do Egito... o três é um número místico. O símbolo do número 3 nos contos de fadas obedece ao seguinte modelo: a primeira tentativa não é a certa, a seguinte também não, a terceira... certamente, parte-se do princípio que o que ocorre uma vez poderá nunca mais acontecer, mas, se acontecer a segunda, com certeza acontecerá a terceira e circula mítico estará completo.
            A madrasta representa a rivalidade feminina, rivalidade intrínseca, velada, guardada muitas vezes, embaixo do mesmo teto, num ambiente conflituoso, invejoso e de sofrimento que, frise-se não é percebido pelo homem.
            A árvore e os pombos, no conto em análise, são responsáveis pelo distanciamento de Cinderela das cinzas, do sofrimento e do trabalho sem fim, ainda para eles é devotado a passagem de um mundo triste e sujo para outro lindo, rico, tanto simbolicamente quanto fisicamente. A árvore e os pombos ainda estabelecem a ligação entre o céu e a terra, o corpo terreno e a alma, a realidade e o mágico, ter os pés no chão e sonhar. O fato da árvore ser uma aveleira remete-nos ao símbolo matrimonial da avelã, que representa a fertilidade e pelo fato de que para os mágicos,normalmente, a varinha é feita da aveleira.
            Os contos de fada não são antigos, suas simbologias persistem na sociedade contemporânea. O homem necessita do imaginário para poder realizar seus sonhos, busca pelo amor verdadeiro, a necessidade de ter alguém para contar, o valor do belo e do rico, a inveja fraternal, o amor puro e único da mãe verdadeira, a dependência masculina e outros tantos temas pertinentes ao texto em questão.
 

 
 


Um comentário:

Anônimo disse...

blog incrível!

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