sábado, 5 de maio de 2012

Inverno da Alma



se vale pelo sta­tus de cult para acu­mu­lar pres­tí­gio entre os indi­ca­dos ao . Mais do que crí­tica social, é bom por causa da inter­pre­ta­ção de seus atores

Realizado com ape­nas 2 milhões de dóla­res, um orça­mento baixo para os padrões hollywo­o­di­a­nos, Inverno da Alma é o mais inde­pen­dente dos fil­mes indi­ca­dos ao Oscar e con­corre a qua­tro cate­go­rias, incluindo melhor filme. No seu cur­rí­culo ainda está o prê­mio do júri do fes­ti­val de Sundance.

Adaptação do romance homô­nimo de Daniel Woodrell, a his­tó­ria é cons­truída por um con­junto sim­ples de fato­res: um pai tra­fi­cante desa­pa­re­cido, a filha mais velha que cuida dos irmãos mais novos, da mãe (doente men­tal), e o acon­te­ci­mento de uma situ­a­ção limite. A filha mais velha, Ree Dolly () , des­co­bre que seu pai, para sair da cadeia, colo­cou a casa como garan­tia de paga­mento de sua fiança. Ele pre­cisa com­pa­re­cer a uma audi­ên­cia com juiz, pois caso isso não ocorra a casa da famí­lia será tomada. Desesperada com a pos­si­bi­li­dade de per­der a casa, Ree pre­cisa achar seu pai, estando ele vivo ou morto.
É aqui que o filme começa a con­so­li­dar o clima melan­có­lico que marca a obra. Desde o começo vemos vários ele­men­tos uti­li­za­dos em sequên­cia para aju­dar essa cons­tru­ção: a famí­lia vive de doa­ções dos vizi­nhos, as casas são velhas e dete­ri­o­ra­das, as rou­pas são sujas e gas­tas, tudo parece sem graça e sem vida. Há ainda o cená­rio onde o his­tó­ria é ambi­en­tada: uma comu­ni­dade nas mon­ta­nhas, que se ren­deu as dro­gas e que sofre com a falta de dinheiro.

Junte tudo com um pouco de mis­té­rio que ronda a comu­ni­dade: pes­soas que não que­rem falar no assunto e uma cone­xão mal expli­cada entre todos os habi­tan­tes, e pronto. À pri­meira vista o filme pode pare­cer uma cole­ção de cli­chês, mas é ai que Inverno da Alma se supera. Acima de tudo, ele é feito para ser triste, seu tema se resume a tris­teza, mas não há exa­ge­ros, exa­cer­ba­ção ou des­per­dí­cios nos sen­ti­men­tos ou drama, tudo é plau­sí­vel com a rea­li­dade do enredo. A pro­ta­go­nista Ree, com 17 anos, não chora pelos can­tos, o deses­pero é sen­tido pelo seu rosto, assim como o de outros per­so­na­gens. É um filme sen­sí­vel, cheio de entre­li­nhas e sutilezas.

Outro ponto que sur­pre­ende é a maneira como a his­tó­ria se den­sen­rola, sem mui­tas expli­ca­ções, sem se apro­fun­dar em deta­lhes, o que importa é a trama cen­tral, única. Todos os ele­men­tos, que são pou­cos, con­ver­gem para a pro­ta­go­nista. A cons­tru­ção dos per­so­na­gens é feita de maneira cari­cata, mas as inter­pre­ta­ções levam o filme até o final, des­ta­que para a de Jennifer Lawrence como Ree Dolly, e do ator , como Teardrop, tio de Ree.

O filme man­tém a aúrea de pro­du­ção inde­pen­dente, tanto na esco­lhas dos ato­res, todos des­co­nhe­ci­dos, quanto na ten­ta­tiva de ser algo con­cei­tual. E é aí que erra. A nar­r­ra­tiva lenta e arras­tada que deve­ria dei­xar o público ansi­oso, preso e angus­ti­ado, acaba pro­vo­cando o con­trá­rio. Dificilmente as cenas exi­bi­das, e o tempo de nar­ra­ção pren­de­rão a aten­ção do espectador.

O uso exa­ge­rado de per­so­na­gens cari­ca­tos, que sur­gem o tempo todo, com um cará­ter dúbio, na ten­ta­tiva de res­sal­tar o drama da pro­ta­go­nista, não fun­ci­ona. Torna-se can­sa­tivo, e às vezes des­ne­ces­sá­rio. Há uma falta de agi­li­dade em tra­ba­lhar o roteiro para que ele rea­li­zasse essa fun­ção, logo, existe uma pre­o­cu­pa­ção cons­tante em mon­tar o clima do filme, uti­li­zando todos os ele­men­tos pos­sí­veis. E todos eles tem somente a fun­ção de aumen­tar a carga dra­má­tica da pro­ta­go­nista. A opção da dire­tora em usar uma foto­gra­fia escura aca­bou pre­ju­di­cando a beleza de alguns cenários.

Todos esses fato­res estão lá, mas isso não pre­ju­dica o todo. A ver­dade é que a obra é des­ta­que no Oscar mais pelo seu sta­tus de filme inde­pen­dente, do que pela pro­du­ção em si. O filme pos­sui alguns fato­res que o fazem sur­pre­en­der, como ino­var ao usar um roteiro mini­ma­lista. Não ocor­rem digres­sões, não há tra­mas para­le­las, a his­tó­ria se mos­tra fechada em uma linha reta.Mesmo pos­suindo um tema fixo, Inverno da Alma é aberto para várias pos­si­bil­da­des: crí­tica social, ama­du­re­ci­mento pre­coce e um retrato da vida.

Outro fator, tal­vez o mais impor­tante, é que Granik foge dos padrões, o fim pre­vi­sí­vel se resume a supe­ra­ção do pro­blema, mas essa supe­ra­ção não é mágica, não ocorre uma revi­ra­volta na vida dos per­so­na­gens. A melan­co­lia não desa­pa­rece, ela con­ti­nua pre­sente e cer­cando a pro­ta­go­nista. É um filme bom, que está sendo supe­res­ti­mado pelas gran­des inter­pre­ta­ções de John Hawkes e Jennifer Lawrence, fadado a se tor­nar uma refe­rên­cia cult, mas ainda pre­cisa amadurecer.

Merece sim aten­ção por reve­lar novos talen­tos, pela ino­va­ção da nar­ra­tiva, que uti­liza um único argu­mento para gerar toda uma trama, pela des­pre­o­cu­pa­ção em dar expli­ca­ções da his­tó­ria, pela dire­ção de Granik, linear e direta. Mas ainda é ape­nas uma pro­du­ção de uma dire­tora pro­mis­sora, que comete erros banais. A ver­dade é que os crí­ti­cos se encan­ta­ram com a capa­ci­dade de Granik em encon­trar a dosa­gem certa de sen­ti­men­tos e emo­ções para a pro­du­ção. E isso é mérito e reco­nhe­ci­mento mere­cido da diretora.







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