sábado, 22 de outubro de 2011

À má soeur

Poucos filmes são mais francos e honestos do que os de Catherine Breillat. O que há de supostamente provocativo nos seus filmes vem muito mais disso, do que das idéias (discutíveis) da cineasta a respeito de sexualidade. Nos filmes de Catherine Breillat, e não será diferente neste Para Minha Irmã, somos obrigados a pensar nossa relação diante das imagens na tela o tempo todo.

Breillat é uma diretora sempre aberta a respeito do que sente e o que pensa, o que no papel podemos todos concordar se tratar de algo positivo. Só que experimentar Para Minha Irmã é outra coisa: o filme te pega desprevenido, te desmonta a todo momento. Um feito e tanto se pensarmos que se trata de um filme de tese. Mas até nisso a diretora é bem aberta: a primeira cena te dá as regras do jogo, deixe bem claro o que vai se desenvolver a partir dali. Seja nas relações entre as duas irmãs (Roxanne Mesquida e Anais Reboux), seja nas suas relações com o sexo oposto.

Na seqüência chave do filme a irmã mais velha e bonita (Mesquida) perde a virgindade para um jovem italiano alguns anos mais velho chamado Fernando (Libero di Renzo). Vale observar como Breillat precede na seqüência. A cineasta odeia aparências. Sabemos que ela desaprova Fernando no momento que o apresenta se aproximando da irmã que não lhe interessa, para chegar aquela que atraiu seu olhar.

A câmera de Breillat portanto julga, e nunca temos dúvidas de onde ela se posiciona em relação as ações que desenrolam na nossa frente. Só que isto não fecha a questão. Dizer simplesmente que aquele sujeito é um canalha que está estuprando emocionalmente a garota poderia ser a resposta num filme menor, mas não nesse.

Porque há aqui sempre espaço para o espectador tomar suas próprias posições em relação ao que transcorre na tela, o que nos traz uma nova série de complicações. Não estamos afinal em terreno fácil; e a seu modo Breillat nos joga a bomba e pede que nos viremos por nós mesmos. A ação segue num misto de comédia de erros e embaraço com espetáculo voyeurístico explicito (sensação aumentada pela posicionamento da câmera que ocasionalmente sugere uma subjetiva da irmã mais nova que também está no quarto). Para Catherine Breillat a perda da virgindade de uma adolescente é sempre um negócio sujo (e não tenham dúvidas: sexo aqui é sempre uma questão de poder). Porque ela aliviaria a barra para nós, sentados confortavelmente no cinema?

Pode-se questionar até que ponto o filme não explora as duas atrizes adolescentes. Pois bem, esse questionamento está ali na tela, cena após cena, construído pela própria cineasta, porque Breillat nunca deixa de por em questão sua própria posição diante do que mostra. Nada é tão simples no seu cinema: Fernando pode ser um canalha, mas a garota não deixava de ser sua cúmplice dentro da sua pré-disposição natural de aceitar suas mentiras.

Pré-disposição que a cineasta não deixa de nos lembrar também é a nossa. É um cinema, de certa forma, anti-ilusionista. Menos por uma crença numa forma qualquer de naturalismo (até porque o filme nunca tenta se passar por realista), mas numa fidelidade aos sentimentos da diretora pelo que filma. Há um incômodo muito grande em algumas das cenas de Reboux, porque nunca sabemos até onde ela está efetivamente atuando ou sendo ela mesma. Este incômodo é bem natural dentro do contexto do filme, já que a diretora assume que sua admiração pela personagem/atriz passa pela forma como esta parece aceitar seu próprio corpo como ele é.

A diretora vai montando seus argumentos. Nos irrita às vezes pela falta de sutileza de certas cenas, mas seria desonesto da parte dela ser sutil nelas. Logo depois nos surpreende justamente com a sutileza com que constrói as cenas entre as irmãs (a do espelho é bem marcante). O clímax do filme, em particular, parece irritar muitos espectadores pela sua grosseria. Analisando ela com cuidado veremos outra coisa. Antes de mais nada, não há nada de chocante ali.

O filme nos prepara para ela desde a primeira cena e as seqüências anteriores com os caminhões vão cuidadosamente tirando qualquer impacto maior do que vai acontecer. A seqüência parece sugerir que o filme entra no terreno da fantasia, mas ao mesmo tempo parece se contradizer. No fundo ela ocorrer ou não pouco importa, mais relevante é ter em conta que é a forma que a diretora encontra para conceder às suas duas personagens centrais os seus desejos. É relevante também notar como a diretora esconde uma ação central ao filmá-la pelo ponto de vista do banco de trás (o que ela logo depois evitara fazer numa outra ação similar).

Raro momento de pudor da parte da cineasta, deixando claro o seu desconforto em ter de filmar aquela ação. Calha de ser também o momento em que o filme se assume como um filme de horror (vale questionar se já não era um filme de horror desde a cena inicial). Filmes de horror sobre a adolescência existem diversos; um tão apto em captar tanto o lado sensível quanto mais grosseiro do período, e tão ético como este, são raros.






Bluebeard


Um conto de fadas belo e aterrorizante com a assinatura inconfundível da diretora francesa. A primeira vez que Barba Azul chegou às telas foi ainda na época do cinema mudo com o curta-metragem de George Méliès em 1901. Após servir de inspiração para outros realizadores, a história de um lorde cujas esposas desapareciam em série sob misteriosas circunstâncias, é contada agora pela diretora Catherine Breillat, que traz uma nova leitura do famoso conto do escritor francês Charles Perrault (1628-1703).
O filme – integrante da programação do Festival de Nova York – marca o retorno da diretora ao evento onde apresentou há dois anos atrás Uma Velha Amante, também adaptação de uma obra literária, desta vez de Barbey d’Aureville
A história de Barba Azul é narrada, na França dos anos 50, através de duas jovens que levam, para o final do século XVII, a ação do fantástico conto de crueldade, curiosidade, conflito e amor fraternal.
Através de sua inocência, as jovens nos mostram que os mitos poderosos ressoam de geração a geração, permitindo que nossa imaginação preencha os brancos, já que não é o texto propriamente o que importa, mas o que fazemos com ele.
A história tem início logo após a morte do pai da jovem Marie-Catherine (Lola Créton) quando ela aceita se tornar a nova esposa de um sinistro aristocrata (Dominique Thomas). Para ela é uma forma de sair do dilema entre acabar num convento ou continuar vivendo à sombra de sua bela e talentosa irmã. O marido dá a sua jovem esposa as chaves dos quartos do castelo, com a permissão de entrar em todos, menos em um. Um dia quando Barba Azul está fora, Marie desobedece à regra de entrar no quarto proibido.
Breillat optou por determinadas adaptações na transposição do conto de Perrault para as telas. Embora mantendo sua essência, foram realizados alguns ajustes, principalmente quanto ao desnudamento das metáforas da obra, à captação da atmosfera do período e a eliminação dos vícios e lugares comuns no cinema do gênero.
A diretora francesa de elogiados trabalhos como Romance e À Ma Soeur tem declarado que Barba Azul talvez seja o filme que mais espelha sua personalidade, já que representa uma forma de expressão isenta de tabus e accessível para o público em geral.
Ainda não totalmente recuperada do derrame que sofreu em 2004, o que quase fez com que abandonasse o cinema, a criativa cineasta realizou uma adaptação totalmente inovadora do clássico conto de Perrault escrito no final do século XVII.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Fishtank


Fish Tank trata da paixão de uma adolescente de 16 anos por seu candidato a padrasto, e a música preferida do personagem é "California Dreamin'", na voz de Bobby Womack. Fica difícil não pensar na sinistra coincidência, agora que veio a público a intimidade incestuosa de John Phillips, líder da banda que compôs a canção, The Mamas & The Papas.

Rodado em Essex, na Inglaterra, Fish Tank volta aos conjuntos habitacionais impessoais que já serviam de cenário em Marcas da Vida. O tal fã de Womack é Connor (Michael Fassbender), namorado novo da mãe de Mia (Katie Jarvis). No país de Simon Cowell, todo adolescente se acha um pouco estrela, e Mia treina muito para que sua dança a leve para outro lugar. Quando Connor se mostra entusiasta dos sonhos de Mia, a coisa já começa a complicar.

Os aquários do título estão, figurativamente, por todos os lados: no cubículo com paredes azuis que Mia invade para dançar break, na ação que a câmera captura pelo buraco retangular da parede, nos videoclipes abastados de hip hop que passam o tempo todo na TV. A vida é um claustro quadrado em Fish Tank.

E essa visão pessimista de mundo - não dá pra dizer reducionista, porque a própria proposta do filme é trabalhar com a redução como sufoco - não dá descanso. Em sua história de formação ( como em tantas outras típicas passagens da adolescência à vida adulta, como o recente À Deriva), Mia descobre o sexo, se desilude com o mundo dos adultos, cai na realidade de que nem todo garoto de sua idade é do mal, e, finalmente, encara o risco da morte de perto.

O filme não parece ter muitos atrativos, a princípio, e não tem mesmo, afinal, a realidade não é sempre atraente e esse filme é um recorte, um momento real. Andrea Arnold se baseia na British New Wave, movimento cinematográfico nascido nos anos 50 que se espelhava na Nouvelle Vague Francesa e sobreviveu, em sua maior parte, na televisão através de programas como Coronation Street e Eastenders. Por falar do cotidiano dessa classe menos favorecida da Inglaterra, a esse movimento também se deu o nome de Kitchen Sink Drama (tradução literal drama de pia de cozinha).
Mia é a típica personagem principal dos KSD, uma anti-heroína, não satisfeita com a sua vida e com o mundo ao ser redor. Ela se protege desse mundo, bebendo tudo que encontra, brigando e soltando muitos palavrões. Isso é, até a chegada de Connor, o novo namorado da mãe que, ao demonstrar o mínimo de afeto pela garota, acaba descobrindo seu outro lado, uma menina carente de quem, dando um pouquinho de atenção, ele pode conseguir tudo.
É essencialmente o que eu caracterizo como filme de ator, cuja força se encontra nos personagens muito bem escritos e bem interpretados principalmente por Katie Jarvis, que vive Mia, e Michael Fassbinder, como Connor. Não se assuste se seu dvd vier em formato 3×4, esse foi o formato escolhido pela diretora para passar ao público a claustrofobia do ambiente limitador em que Mia vive.
 









 
 

A Última Amante (Une Vieille Maîtresse / The Last Mistress) 2007


Na mundana Paris do século XIX, só se fala no casamento do jovem libertino Ryno de Marigny com a bela e pura Hermangarde, uma flor da aristocracia. Os noivos se amam, porém as más línguas insinuam que Ryno não vai conseguir romper um antigo romance com a Vellini, uma cortesã escandalosa, filha de uma duquesa com um toureador. Entre confidências, traições e segredos numa sociedade paralisada pelas convenções, a força dos sentimentos vai provocar os acontecimentos. Baseado no romance de Barbey d’Aurevilly, com o mesmo título do filme. Exibido na Seção Competitiva de Cannes 2007.

Entrando no ritmos dos longas franceses, “Une Vieille Maitresse” ou a “Última Amante” é um longa metragem diferente em todos os aspectos. Catherine Breillat, a famosa cineasta francesa e também responsável pelos dois longas escandalosos, o Anatomie de l’enfer (2004) e Romance (1999), cheios de cenas de sexo altamente evidenciadas, nos traz esse filme de época que é uma adaptação do romance “Une Vieille Maitresse”, de Jules-Amédée Barbey d’Auverilly.

O filme é Francês e sendo assim a língua do filme é francesa. Parece tolice comentar a língua do filme, mas existem alguns filmes de época, que retratam a frança,  mas que são em língua inglesa, e o fato de ser em Francês acaba criando um certo desconforto para algumas pessoas que não curtem filmes franceses.

Mas falando um pouco do filme, a direção é diferente do que estamos acostumados, os diálogos são longos, quase não há música nas cenas, seja ela para dar ênfase na cena ou que faça parte da cena, acredito que hajam duas ou três apenas. Há muita cena de sexo, com muita riqueza de detalhes, cenas essas que duram bastante tempo, tempo suficiente para deixarmos sem graça, caso você esteja assistindo com pessoas de cerimônia, uma irmã, pai,mãe, filhos, etc.

O figurino é muito bonito, assim como a fotografia do filme. Mas o filme é bom? Sim, é. Mas não é o tipo de filme para qualquer um assistir, é preciso gostar do gênero, da origem e do elenco. Assistam em casa em DVD, é um filme interessante que explora o aspecto da mulher do século 19 que de um lado é uma aristocrata cheia de pudores e de outro uma mulher mundana, que vive sua sexualidade sem nenhuma restrição frente a uma sociedade altamente repressiva da época.









quinta-feira, 20 de outubro de 2011

The Heart Is Deceitful Above All Things


Maldito Coração é um filme cool. Dirigido e protagonizado pela atriz Asia Argento (Terra dos Mortos) - que, por sinal, é filha do mestre do terror italiano Dario Argento -, é uma adaptação da coleção de contos The Heart is Deceitful Above All Things - inédito no Brasil -, de um dos escritores mais festejados dos últimos anos, J.T. Leroy. O escritor esteve no Brasil ano passado.

Quem o viu sabe que se trata de uma figura andrógena, provavelmente reflexo do que diz ter passado em seus livros, de inspiração autobiográfica. Onde termina a realidade e começa a ficção ninguém sabe. O fato é que, de acordo com uma reportagem publicada recentemente no jornal norte-americano The New York Times, J.T. Leroy é uma farsa. A pessoa que se apresenta como o escritor é uma modelo. Os verdadeiros escritores de seus livros seriam uma dupla de jornalistas americanos.

A possível farsa somente serve para aumentar ainda mais a aura em torno de Leroy, que tem diversos amigos no showbusiness. Maldito Coração é um reflexo disso: mais do que a adaptação de seus contos, o filme também é uma celebração de seu hype, vide as participações de luxo ao longo do filme.

Por isso, Maldito Coração é um filme cool. O filme narra o drama de Jeremiah (Jimmy Bennett, Dylan Sprouse e Cole Sprouse, em idades diferentes), cujo crescimento sempre foi atrapalhado, digamos, pela presença de sua mãe totalmente desequilibrada. Sarah (Asia Argento) teve seu primeiro e único filho na adolescência. Filha de pais extremamente religiosos (Peter Fonda e Ornella Muti), Sarah cresceu sendo reprimida violentamente. Passou por clínicas psiquiátricas até que fugiu de casa, após dar o primeiro filho à adoção.
Esse filme é muito triste e real em muitas famílias em todo lugar do mundo, conta a história de Jeremiah, um menino que vivia muito bem em um lar adotivo, e derepente é obrigado a conviver com sua mãe.

Para muitos isso seria uma maravilha, mas acontece que a mãe dele é uma ex presidiária, prostituta, drogada e alcoólatra, e faz o pobre menino passar por situações de tortura, violência, estupro e embriaguês. Ela por vários momentos coloca seu filho face a face com a morte e sempre quando uma esperança aparece pra ele ou a vida dele começa a melhorar, ela arruma um jeito de detonar tudo.

Ela escraviza a pobre criança, faz ele se travesti e ainda por cima o coloca pra transar com homens vestido igual a ela mesma, faz uma verdadeira confusão com a sexualidade do próprio filho, um triste drama que vale a pena ser visto.

Entre situações bizarras e chocantes, acontece um verdadeiro desfile de participações especiais luxuosas. O que acaba desviando o olhar do espectador. Além dos já citados Peter Fonda e Ornela Muti, também estão no elenco John Robinson (Elefante), Ben Foster (do seriado A Sete Palmos), o roqueiro Marilyn Manson (irreconhecível sem a maquiagem), Kip Pardue (Heróis Imaginários), Michael Pitt (Os Sonhadores), Winona Ryder e Jeremy Sisto (também do seriado A Sete Palmos).

Maldito Coração é um drama assustador ao tratar esses temas de forma tão explícita. Não há, aqui, a sutileza da abordagem de O Lenhador em relação à pedofilia, por exemplo. A trilha sonora é dos nova-iorquinos do Sonic Youth, banda celebrada no cenário independente. Seu som, totalmente experimental, muitas vezes perturbador graças às guitarras distorcidas, casa muito bem com a produção. Nada mais perfeito. Afinal, Maldito Coração é um filme totalmente cru, incômodo, conseguindo chocar o espectador da mesma forma que a literatura de J.T. Leroy conseguiu. Mas, assim como os livros dessa possível fraude, não é uma produção indispensável. Mas, no mínimo, interessante.

 
Informações Técnicas:
Título no Brasil: Maldito Coração
Título Original: The Heart Is Deceitful Above All Things
País de Origem: EUA / Reino Unido / França / Japão
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 98 minutos
Ano de Lançamento: 2004
Direção: Asia Argento