quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Sakura Flowers


Hanami (pt olhar as flores) é um costume tradicional japonês de apreciar a beleza das flores. Nesse festival, as pessoas costumam se reunir embaixo das árvores para apreciar o evento enquanto fazem piquenique.

Na primavera é a temporada para ver as flores, principalmente as flores chamadas Sakura. Todo ano pessoas em todo Japão reservam um tempo para fazer festas ao ar livre, piqueniques, reuniões de família e amigos, tudo para apreciar a beleza das flores.

O fascínio dos japoneses pelas flores Sakura é porque elas suas flores murcham quase logo após florescerem. Durante séculos a flor Sakura foi uma metáfora para a vida. Para os japoneses a vida é considerada transitória, enferma ou de curta duração.

É meio deprimente, mas ao mesmo tempo faz você perceber quanto a vida é preciosa. A Sakura as vezes também é sinônimo de juventude, para os japoneses a juventude é passageira e isso a torna um tanto amarga.
Originária da Ásia, Sakura é uma flor de cerejeira, antigamente era associada ao samurai cuja vida era tão efêmera quanto a da flor que se desprendia da árvore. Já o fruto tem o significado de sensualidade.

Por seu vermelho intenso e maduro, a cereja suculenta é talvez o exemplo mais proeminente. O suco de cereja madura é de tão intenso sabor e cor que tem sido freqüentemente comparado ao primeiro gosto do amor. Na aparência, das cerejas têm sido dito que lembram os lábios de uma amante, e quando mordê-lo em uma cereja, o fruto dá a aparência de sangrar. Há muito tempo existe uma ligação erótica para o fruto da árvore de cereja.

Como tatuagem, a cereja representa a castidade feminina e a pureza do amadurecimento da fruta. Uma vez arrancada, no entanto, a cereja representa a perda da inocência e da virtude. Uma cereja provada, sua carne perfurada pelo apetite, não é mais virgem. Uma cereja em chamas fala do desejo insaciável, paixão e luxúria.




















quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

À Deriva - Filme de Heitor Dhalia



À Deriva é um filme brasileiro de 2009, dirigido e escrito por Heitor Dhalia.


Foi selecionado para a 62ª edição do Festival de Cannes, concorrendo na mostra paralela "Um certo olhar" (Un certain regard). No Festival de Cinema de Havana de 2009 ganhou o prêmio de melhor fotografia.


À Deriva conta a história de Filipa, uma menina de 14 anos de idade que passa as férias com sua família na cidade de Búzios, no Rio de Janeiro. Enquanto descobre a si mesma, travando contato com as paixões e desafios comuns da adolescência, Filipa tem que lidar com a descoberta do relacionamento que seu pai, Matias mantém com Ângela.

São histórias que tentam resumir, normalmente em um evento marcante da infância ou da adolescência, os caminhos de caráter e comportamento que personagens tomarão para o resto de suas vidas.
Durante as férias da família em Búzios, ao lado do pai escritor (Vincent Cassel) e da mãe com tendência ao alcoolismo (Débora Bloch), Filipa deixará a inocência para ingressar na vida adulta.


Para ficar no exemplo mais próximo, o de Stella, há nos dois filmes traços em comum: o fim da ingenuidade (a filha acompanha como um adultério quebra a harmonia familiar), a ânsia por se impor (brincar de se vestir como adulta, flertar sem compromisso com garotos) e a presença de uma arma de fogo como emblema máximo da violência de crescer.


Dhalia trabalha, no fim das contas, com situações clássicas. O que o seu filme tem de particular é a sensualidade - ou, já que estamos reduzindo um pouco a questão em termos geográficos, o que o seu filme tem de único é a famosa brasilidade. Filipa é menina em corpo de adulta. A câmera do diretor de fotografia Ricardo Della Rosa desde a primeira cena cola em Laura Neiva, e não a perde mais de vista, nem submersa na piscina. A descoberta do sexo é momento essencial na vida de todo mundo, afinal, e À Deriva - nem que seja só por plasticidade - venera corpos ao sol sem se envergonhar.


A opção pela paisagem de Búzios está em sintonia com essa estética: o cinza escuro áspero das pedras em contraste com o liso suado da pele e os troncos retorcidos das árvores se confundindo com as curvas da puberdade.


Terminou com mais de cinco minutos de aplausos a sessão de gala do filme. A sessão era formada em boa parte por convidados da equipe e jornalistas. As atrizes Debora Bloch e a estreante de 16 anos Laura Neiva, protagonista do filme, choraram bastante emocionadas.

 Antes da projeção, subiram ao palco Dhalia, os atores Vincent Cassel, Debora Bloch, Cauã Reymond e Laura Neiva. O francês Cassel foi o primeiro a falar, em português. "Boa noite, eu sou Vicente Cassel, ator 'franco-brasileiro'. Estou aqui para defender esse maravilhoso cinema brasileiro. Algo de importante está acontecendo lá", disse o ator, que também fala português no filme.

Dhalia disse que era uma grande honra estar em Cannes e dedicou a sessão à atriz Laura Neiva. Debora Bloch falou em francês com a platéia: "Espero do fundo do meu coração que vocês fiquem tocados pelo filme como nós ficamos durante as filmagens".

Terceiro filme de Heitor Dhalia (de "O Cheiro do Ralo" e "Nina"), "À Deriva" é uma co-produção internacional entre O2 Filmes, de Fernando Meirelles, e a Focus Features (braço independente da Universal).

"À Deriva" é amparado por uma bela fotografia, que dá um tom de memória e nostalgia ao filme, como se a história fosse contada por uma Filipa já mais velha, muitos anos depois, mas sem apelar ao recurso banal do flashback.

Além do visual bonito, outro grande atrativo do filme é a atuação de Deborah Bloch, atriz pouco aproveitada no cinema, que tem seu melhor papel desde "A Ostra e o Vento" (1997), de Walter Lima Jr. Laura Neiva, que foi descoberta no Orkut, mostra segurança em seu primeiro papel no cinema e sua boa atuação deve render convites para novos trabalhos.

Laura Neiva, 14, nunca pensou em ser atriz. Aluna do nono ano do ensino fundamental, sua vontade era mesmo ser modelo.

Mas, graças ao Orkut, ela descobriu a vocação para as telas. Suas fotos no site de relacionamento chamaram a atenção dos produtores de casting de “A Deriva”, novo filme do diretor Heitor Dhalia (de “Nina” e “O Cheiro do Ralo”), que está sendo rodado em Búzios (RJ).
Para encontrar os novos talentos, ele rodou shoppings, escolas e todo tipo de evento adolescente. “Mas essas pesquisas  rendiam muito pouco, e a gente acabava gastando tempo demais. O Orkut foi a solução mais prática”, diz Acioly.
Assim que recebeu uma mensagem pelo Orkut, Laura desconfiou. “Achei que fosse trote. Mas uma amiga insistiu que era pra valer, e eu acabei passando o meu MSN. Meu primeiro contato com a produção foi pelo MSN”, diz a garota, que vai faltar nas aulas por dois meses por causa das filmagens.
Para não perder o ano letivo, Laura se comprometeu a ter aulas particulares assim que o trabalho terminar.
O cachê que vai receber pelo primeiro trabalho, Laura nem sabe quanto é. “Meus pais que negociaram, eu nem perguntei. Estou fazendo mais pela diversão, mas, se der para comprar um notebook, está ótimo”, diz a estudante, que interpreta a protagonista do filme.

Vaidosa, mas sem exageros. Uma menina em fase de transição e amadurecimento. Uma estudante que não gostava das aulas obrigatórias de teatro na escola, e que pensava ser arquiteta.

Laura, que fez sua estréia como atriz no filme, é apontada como uma das maiores revelações da nova geração do cinema brasileiro, mas ela prefere seguir o conselho da mãe: "Ela me fala o tempo todo para manter os pés no chão".

Entrevista com Laura:

 


- Você foi descoberta pelo Orkut. Como foi isso? Você desconfiou, em algum momento, que poderia sem algum tipo de spam?

- Na primeira vez que vi o convite da Anna Luiza, produtora de casting do filme, nem me passou pela cabeça ser verdade, e por isso nem respondi. No dia seguinte, ela me mandou outro scrap dizendo que era um teste seguro, e que eu não precisava ter medo. Mas eu só respondi: 'não estou interessada, obrigada'. Depois de três meses, ela conseguiu meu endereço no MSN por intermédio de uma amiga. Começamos, então, a conversar melhor. No começo, minha mãe tinha medo porque achava que pudesse ser um golpe, mas Anna ligou para ela e conseguiu convencê-la.

- Depois que você viu que o convite era sério, o que aconteceu? Topou logo de cara ou ficou receosa?

- Já nas conversas com Anna pelo MSN, comecei a ter certeza de que eu iria participar do filme. Era meio que uma intuição. E eu estava com uma super vontade de fazer parte do projeto.

- Antes do convite para fazer parte do elenco de À Deriva, você já tinha pensado em ser atriz? Se não, quais carreiras pensa ou pensava em seguir?

- Não, nunca tinha pensado em ser atriz. Minha única experiência com interpretação havia sido no teatro da escola, que era obrigatório. Mas eu me sentia muito mal no palco, tanto que quando recebi o convite, essa lembrança foi um dos motivos para a minha recusa. Eu sempre pensei em ser arquiteta.

- E como ficou a escola durante as filmagens?

- Fiz um acordo com o colégio para faltar dois meses durante as filmagens e compensar as aulas perdidas assim que voltasse.

- Quem é a Laura depois de À Deriva?

- Quando coloquei os pés em São Paulo, na volta de Búzios, onde foram as gravações, passou um filme na minha cabeça. Comecei a lembrar de tudo o que tinha acontecido comigo em tão pouco tempo: convivi com adultos, acordava e ia dormir junto com todos, tinha muitas obrigações e responsabilidades, eu não podia falhar. Ao mesmo tempo em que tudo era intenso, também era recompensante chegar no final, e ver que tudo deu certo. Além disso, eu estava trabalhando com pessoas muito legais.

- O que foi mais difícil durante as filmagens? Em algum momento, você teve medo de não conseguir?

- Os horários às vezes eram bem complicados. Em alguns dias, tive que acordar às 4 horas da manhã. Em outros, ia dormir às seis horas da tarde! (risos). Era cansativo passar o dia todo debaixo do sol, mas nunca pensei em desistir porque, além de estar muito envolvida com o trabalho, eu também sabia que muitas pessoas dependiam de mim.

- Como foi trabalhar com Débora Bloch e com Vincent Cassel, sendo dirigida por Heitor Dhalia?

- A Débora é quase uma mãe para mim até hoje. Desde o início, ela me olhava e me tratava como filha. Ela é muito concentrada, sempre chegava no set com o texto decorado e ficava em um canto pensado na cena. Apesar de também ser muito disciplinado, o Vincent sempre arranjava algum jeito de fazer piadas nos intervalos das filmagens. O Heitor, como a minha personagem, que é muito decidida, sabe o que quer. Ele foi muito fofo comigo e sempre esteve disposto a me ajudar o tempo todo.

- A Filipa tinha alguma coisa em comum contigo?

- Sim, estávamos passando pela mesma fase da saída da infância e entrando na adolescência, acho que amadurecemos juntas. Filipa é muito diferente das amigas, uma menina de personalidade muito forte, bastante séria. Às vezes, eu a acho um pouco chatinha! (risos) Nem sei se eu seria amiga dela. Em algumas coisas a gente se parece, mas em outras somos muito diferentes.

- Você tem recebido muitos elogios. Como tem lidado com isso? O assédio te incomoda?

- Minha mãe me fala o tempo todo para eu manter os pés no chão. Não tenho problema com assédio, acho que é algo que faz parte da profissão que escolhi. É ótimo receber os elogios, vivenciar todo esse lado da fama, mas também é muito bom ficar em casa sem fazer nada, ver meus amigos, ir à casa da minha tia e conversar durante horas.

- O que mudou na sua vida? Agora que o filme já foi lançado, você voltou a ter a mesma vida de antes?

- Durante as pré-estreias, e um pouco depois do lançamento do filme ainda tinha muitos compromissos, mas agora está tudo está ficando mais calmo.

- Você continua internauta assídua? Além de Orkut, tem perfis no Facebook e Twitter?

- Claro! Acho que isso nunca vai parar (risos). Continuo no Orkut, e há pouco tempo criei perfis no Facebook, no MySpace e No Twitter.

- Você é vaidosa? Gosta de moda? Pode dar alguma dica de moda para as meninas que se identificam com você?

- Não sou vaidosa ao extremo. Em alguns dias, acordo com uma vontade de me arrumar, mas isso acontece de vez em nunca! (risos). A minha dica: é muito bom gostar de si mesma, e sempre se arrumar para você se sentir bem, principalmente. Sem exageros, é claro.

- Pretende continuar na carreira de atriz?

- Sim, é claro! Estou fazendo curso de teatro na Escola Célia Helena para me preparar melhor. À Deriva foi um trabalho bom, muito gostoso, mas eu tenho que me preparar para fazer qualquer tipo de personagem.

O filme é muito intenso. Você se emocionou quando assistiu pela primeira vez?

- As primeiras vezes que eu o vi, foi muito estranho me ver na tela. Depois vi o filme pronto em Cannes, quando À Deriva foi o único longa-metragem brasileiro em competição no Festival, pela seção Um Certo Olhar. Fiquei muito emocionada com a platéia aplaudindo.

E o que os seus pais e amigos acharam do filme?

- Meus pais se emocionaram muito. Meus amigos já foram algumas vezes assistir À Deriva. Minhas amigas fazem questão de gritar um 'uhuu' quando eu apareço na primeira cena.




















terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Marie Antoinette - Fashion Queen


A lembrança mais forte acerca de Maria Antonieta, rainha da França, é que teria sugerido ao povo faminto que comesse brioches, já que não havia pão. E que por conta de desatinos como esse, teve a cabeça decepada pela guilhotina da Revolução Francesa.

Para quem se interessar em conhecer mais a fundo a história da esposa de Luís XVI, vale a pena conferir Maria Antonieta: a última rainha da França. O livro, lançado este ano pela Editora Objetiva, é fruto de uma exaustiva pesquisa feita pela historiadora Evelyne Lever. Para compor um retrato não apenas da rainha, mas também das questões políticas da Europa no século XVIII, a autora baseou-se em documentos oficiais e cartas de pessoas que compartilharam da intimidade de Maria Antonieta e de sua família, tanto na corte de Viena, onde ela nasceu, quanto na corte francesa.

De tão detalhado, o relato chega a ser um pouco cansativo. O livro conta a história da rainha desde o seu nascimento até a morte. Primeiro, os dias felizes em Viena, com a família, em um estilo de vida muito mais simples do que as inumeráveis exigências de protocolo e etiqueta que precisaria seguir na França. A autora deteve-se em detalhes como as roupas usadas por Maria Antonieta, os pratos que compunham suas refeições e até os diálogos entabulados com as pessoas que lhe eram próximas. Alguns desses detalhes poderiam ter sido suprimidos, bem como uma certa forma de narrativa muito descritiva. Percebe-se, é claro, uma intenção em comprovar os fatos relatados, o que diferencia essa biografia de outras obras mais fantasiosas.

Apesar de não focar exatamente nos aspectos políticos da França e da Europa do século XVIII, é impossível falar de Maria Antonieta sem contextualizar a época em que viveu. A abordagem política fica mais presente quando as atitudes da rainha começam a servir de motivo para as revoltas populares que há muito já se previam. A mistura de egoísmo, arrogância, ingenuidade e futilidade ajudaram a formar uma imagem dela para o povo e seus desafetos que refletia o comportamento da nobreza francesa em geral. Privilégios às pessoas de seu interesse, preocupações com as intrigas da corte, um modo de vida luxuoso e dispendioso e uma completa alienação dos problemas do povo e também das implicações políticas de seus atos, contribuíram para levar a rainha à guilhotina.

Mas o livro não se atém apenas aos defeitos: mostra uma mulher corajosa, de personalidade, prejudicada pela pressão e pela chantagem emocional exercida pela mãe, a rainha da Áustria, mesmo à distância. As atitudes tomadas por Maria Antonieta na corte muitas vezes foram vistas – e apresentadas – como traição. Por conta de sua alienação e do desejo de levar a vida da maneira que lhe interessava e agradava, a rainha não percebia as implicações negativas de seus atos junto ao Rei e aos ministros, quando tentava, em vão, obter posições privilegiadas para as intenções políticas do império austríaco.

Apesar da dificuldade inicial do casamento com Luís XVI, eles tornaram-se um casal unido, inclusive na alienação e na ingenuidade. Enquanto ela se preocupava com os divertimentos e com uma tentativa de viver uma outra vida através da encenação de peças teatrais, na qual era um dos personagens, o rei esquecia-se da vida e dos problemas do país nas caçadas e nas suas oficinas de trabalhos manuais com madeira e ferro. Nenhum dos dois quis ver o quer acontecia a sua volta.

Na verdade, eles não podem ser culpados. Reclusos na vida da corte, tanto Luís quanto Maria Antonieta não foram incentivados a conhecer mais sobre o que acontecia no mundo iluminista, sobre a realidade, sobre os problemas do país. Apesar do esclarecimento da época, a monarquia ainda era vista como algo divino, independente da vontade dos súditos. Por isso a recusa do rei, até o final, em aceitar uma constituição e uma posição menos poderosa nessa nova forma de governo. Por conta dessa teimosia, tanto ele quanto a rainha acabaram sendo acusados e executados como traidores da França.

A imagem de Maria Antonieta, denegrida durante a Revolução Francesa, foi reabilitada após sua morte. Em outro extremo, foi considerada a Rainha Mártir, por seu sofrimento na prisão e na execução. Atualmente, o que a autora de sua biografia propõe é que se veja a rainha nem como uma coisa, nem como outra. Apesar de fútil, egoísta e alienada, ela foi mais o bode expiatório de uma situação da qual apenas fazia parte, mas não poderia ser considerada responsável. Por outro lado, sua coragem e sua lealdade à família fazem dela uma personalidade a ser admirada.

De todas as "lendas" sobre Maria Antonieta, uma parece ser verdadeira: ela teria tido um relacionamento com um nobre sueco, devido à dificuldade em manter uma vida sexual e amorosa normal com o rei. Por outro lado, a história dos brioches não é verdadeira. Teria sido contada por Rousseau, mas referia-se a outra pessoa. Segundo o livro, por mais alienada que fosse, nem Maria Antonieta teria falado uma asneira tão grande.

Virar ícone de uma época – representar uma classe, um modo de pensar e de viver – é destino para poucas pessoas. Uma delas, sem dúvida, foi a austríaca Maria Antônia Josefa Johanna von Habsburg-Lothringen, ou simplesmente Maria Antonieta. O problema é que, dependendo de quem a julga, ela é vista de jeitos completamente diferentes. A controvérsia começou ainda na época de sua morte, no fim do século 18. De um lado, era tida como símbolo da arrogância e da insensatez da monarquia francesa. De outro, era admirada como uma mártir, quase uma santa, sacrificada por loucos que tinham se voltado contra a ordem sagrada das coisas.

Durante muito tempo, a discórdia prosseguiu e, no meio da briga, sobrava pouco espaço para quem queria conhecer a Maria Antonieta de carne e osso. Nos últimos anos, porém, historiadores têm se esforçado para trazer à tona uma imagem mais equilibrada da rainha. Os novos estudos mostram que Maria Antonieta não foi uma mulher fútil e ingênua, mas uma mestra em usar o glamour como arma para se firmar numa corte estranha e hostil.

“Maria Antonieta entendeu que ser uma rainha significava essencialmente interpretar um papel. Mais que isso, ela logo descobriu que, por meio de mudanças na moda, ela podia modificar esse papel e até fugir dele”, afirma a pesquisadora americana Caroline Weber, especialista em cultura francesa do século 18 e autora de Queen of Fashion. “Isso mostra que, até certo ponto, ela tinha uma percepção bem sofisticada e muito moderna do poder da imagem para mudar a realidade".

Mas toda a astúcia com que Maria Antonieta se firmou na corte de seu marido, o rei Luís XVI, não lhe serviu de nada quando estourou a Revolução Francesa, em 1789, que proclamou a liberdade e a igualdade para todos os cidadãos. Foi uma das maiores reviravoltas da história, considerada o marco que separa a Idade Moderna da Idade Contemporânea. Era o fim do que ficaria conhecido como o “Antigo Regime”, em que os privilégios da nobreza estavam acima de tudo. Era o fim do mundo de Maria Antonieta.

A trágica saga de Maria Antonieta começa em Viena, Áustria, numa corte bem menos chique que a da França. Em 2 de novembro de 1755, a imperatriz Maria Teresa deu à luz uma menina pequenina, porém saudável. Era Maria Antônia, seu 15º bebê. O pai, Francisco I, era imperador do Sacro Império Romano-Germânico (que, naquela época, unia frouxamente algumas nações da Europa Central). Mas, apesar da pompa do cargo, não era ele quem mandava. A titular do comando do Império era Maria Teresa, que também era arquiduquesa da Áustria e rainha da Hungria e da Boêmia (hoje parte da Alemanha).

A imperatriz era uma brilhante estrategista política. Detestava perder tempo – aproveitou o parto de Maria Antonieta, por exemplo, para extrair um dente. Mas, apesar de ser viciada em trabalho, era uma boa mãe. Preocupava-se até com a formação musical dos filhos, que tinham contato com alguns dos músicos mais talentosos da Europa. Um deles foi o prodígio Mozart, recebido em Viena com apenas 7 anos. Reza a lenda que, ao andar pelo chão encerado do palácio, ele teria levado um tombo. Maria Antonieta, meses mais velha que ele, teria corrido para ajudá-lo e lhe dado um beijo na bochecha. “Você é bondosa. Quando crescer, quero me casar com você”, teria dito Mozart.

Mas a mãe tinha outros planos para o futuro da menina. Com a morte de Francisco I, em 1765, Maria Teresa buscou se aproximar das outras cortes européias. Usou uma estratégia bastante comum na época: ofereceu suas filhas em casamento. Maria Antonieta se tornou, assim, pretendente de Luís Augusto, neto do rei francês Luís XV. Com a morte prematura dos pais, o rapaz havia se tornado o delfim, herdeiro do trono. A idéia de Maria Teresa era criar uma aliança duradoura com a França, que vivia entrando em conflito com a Áustria e outros membros do Sacro Império.

A corte francesa resistiu bastante à união com a família austríaca, mas, em 1769, veio a proposta oficial de casamento. As diferenças entre os noivos não poderiam ser maiores. Segundo os relatos da época, Maria Antonieta tinha uma impecável pele branca, boca carnuda, cabelos louros e olhos azuis. Caminhava e dançava com elegância. Já Luís Augusto, um ano mais velho que ela, parecia ter crescido demais para a idade. Era desengonçado, absurdamente tímido e considerado um palerma pela corte francesa. Seu único traço aparente de nobreza eram os belos olhos azuis (mas, como ele não levava mesmo jeito para a perfeição, era levemente míope).
  
 Em território francês, a jovem conheceu Luís XV, então com 60 anos. Depois foi a vez do noivo. Luís Augusto, que tivera pouquíssimo contato com mulheres e certamente era virgem, acabou dando apenas um beijo rápido no rosto de Maria Antonieta. Uma nova cerimônia de casamento foi celebrada em Versalhes, o subúrbio nos arredores de Paris onde residia a corte francesa. Sob os olhos atentos da nobreza, o casal se retirou para a cama. Ali aconteceu algo que iria se repetir durante anos: “Nada”, como escreveu o delfim no seu diário, na manhã seguinte.

Não foi fácil para a menina de 14 anos se adaptar à nova vida na França. Claro que Maria Antonieta apreciava estar vivendo no Palácio de Versalhes, o mais esplendoroso da Europa. Mas as complicadas regras de etiqueta da corte francesa a irritavam um bocado. Para piorar, a privacidade era praticamente inexistente – em tudo o que fazia, ela era observada pelos membros da corte. Além disso, por ter sido criada num ambiente quase puritano, Maria Antonieta não engolia o costume dos nobres franceses de ter amantes “oficiais”. Era o caso do próprio Luís XV, que, viúvo, levava às festas da realeza a ex-prostituta Madame du Barry.

O estranhamento da jovem com a nobreza francesa fez com que ela fosse apelidada, pejorativamente, de l·Autrichienne, “a Austríaca”. “A parte mais antiga da corte considerava Maria Antonieta uma arrivista sem nenhum senso da civilidade, do refinamento e da elegância francesa”, diz Caroline Weber. Por algum tempo, a princesa teve que suportar a má fama. Até que, em 1774, o rei morreu de varíola. Luís Augusto e Maria Antonieta viraram, assim, os soberanos da França.

Num piscar de olhos, a rainha usou sua nova posição para criar uma vida de sonho. Dispensou boa parte das antigas damas de companhia, povoou a corte de gente jovem e bonita e ganhou do marido, agora chamado de Luís XVI, o charmoso palácio do Petit Trianon (que antes pertencera a Madame du Barry), em Versalhes. Maria Antonieta organizava corridas de cavalo e se divertia em passeios de carruagem a toda velocidade.

O que mais fascinava a rainha, entretanto, era o agito da noite parisiense (a cidade, então uma das maiores do mundo, tinha 600 mil habitantes). Além de freqüentar óperas e teatros, Maria Antonieta adorava participar de bailes a que as mulheres compareciam mascaradas. Assim, podia se misturar com plebeus sem ser reconhecida. Como Luís XVI adorava acordar cedo, ele não se incomodava em deixá-la ir se divertir sem ele.

O rei, aliás, parecia satisfeito em fazer as vontades de sua esposa. Como ela gostava de jogar cartas, Luís XVI instalou um cassino particular em Versalhes. Na estréia da nova atração, a rainha jogou durante 36 horas seguidas. Perdeu uma boa quantia de dinheiro dos cofres da coroa. Nada comparável, claro, ao que ela gastava para aumentar sua coleção de diamantes.

Por trás desse mundo de diversão e festas, Maria Antonieta tinha que suportar muitas pressões. Os nobres que haviam sido excluídos do convívio com a rainha não paravam de caluniá-la. Segundo Caroline Weber, o jeito de Maria Antonieta reagir era manipular sua aparência. “Ela usava a moda como um instrumento político, como forma de aumentar ou sustentar sua autoridade em momentos em que ela parecia estar sob risco, como nos sete anos que se passaram antes que ela tivesse um filho”, diz. Por meio de novas roupas, sapatos e penteados, a rainha se impôs, colocando-se acima de qualquer mulher francesa

“Foi uma atitude inédita para uma rainha”, afirma Caroline. “Antes, as soberanas francesas tinham de projetar uma imagem dócil, vivendo longe dos holofotes. Quem tentava se envolver em política e exibir seu poder por meio de roupas luxuosas eram as amantes dos reis.” A família real francesa sabia da influência que as amantes costumavam ter nos rumos do governo. Por causa disso, havia exigido, durante as negociações com a mãe de Maria Antonieta antes do casamento, que a futura rainha fosse sedutora o bastante para que o rei não encontrasse distração fora de casa

Deu certo. Fosse por causa da beleza de Maria Antonieta ou pela própria falta de apetite sexual, Luís XVI não dava suas escapadas. O problema é que ele tampouco deixava Maria Antonieta meter a colher na política, o que irritava profundamente Maria Teresa, que insistia que a filha tentasse transformar o monarca num fantoche a serviço de seus interesses

A posição de Maria Antonieta na corte francesa melhorou bastante depois que ela e Luís XVI finalmente tiveram seu primeiro bebê. Em 1778, nasceu Maria Teresa, batizada em homenagem à avó (a imperatriz morreria dois anos depois). O tão esperado delfim, Luís José, veio em 1781

Depois do nascimento do herdeiro, Maria Antonieta ganhou coragem para desafiar ainda mais os costumes de Versalhes. Quando teve os últimos dois filhos, um menino e uma menina, ela se recusou a dar à luz em público, quebrando a tradição da corte francesa

A essa altura, Maria Antonieta parecia viciada em flertar com a impopularidade. Flertar, aliás, tinha se tornado uma rotina na vida dela desde o fim dos anos 1770, quando conhecera o belíssimo conde sueco Axel Fersen. Se não existem provas de que eles chegaram a ter relações sexuais, há poucas dúvidas de que os dois se amavam: os diários de Fersen, em linguagem cifrada, falam de uma “Josefina”, que certamente era Maria Antonieta.

Entre 1779 e 1782, Maria Antonieta e o conde Fersen tiveram que se separar. Ele estava na América, lutando ao lado das tropas francesas pela independência dos Estados Unidos. A saudade do amado foi o maior impacto que a guerra teve sobre o cotidiano da rainha. Nessa época, ela transformou parte do Petit Trianon numa réplica das vilas camponesas da França, com casinhas simples, vacas e ovelhas. Para completar o faz-de-conta, Maria Antonieta passou a se fantasiar de pastora.

Longe de Versalhes, os camponeses de verdade e o resto do povo francês viviam um período difícil. A economia cambaleava, com o governo atolado em dívidas. Os gastos com a guerra na América, que acabou em 1783, só pioraram o cenário. Maria Antonieta ganhou, então, um novo apelido: “Madame Déficit”. Os gastos da rainha tinham um impacto mínimo no total das despesas da nação, é verdade. Mas seus hábitos extravagantes se tornaram o principal alvo da revolta popular contra tudo o que havia de errado no governo.

A péssima colheita de 1788 deixou os camponeses famintos e desesperados. Enquanto isso, a classe média (a burguesia) reclamava dos privilégios dos nobres. Debaixo de tantas críticas, Luís XVI tomou a pior decisão de seu reinado. Convocou, para maio de 1789, uma reunião dos chamados Estados Gerais: uma assembléia reunindo representantes do clero, da nobreza e do povo. Em vez de apoiar as tímidas reformas que o rei pretendia fazer, os Estados Gerais logo foram dominados pelos não-nobres. Em 9 de julho, eles conseguiram criar a Assembléia Nacional Constituinte. Enquanto os camponeses de toda a França se revoltavam contra seus senhores e o povo de Paris destruía a Bastilha (prisão-símbolo do autoritarismo do rei), a assembléia abolia o regime feudal e os privilégios da nobreza.

Em outubro, o povo rebelado invadiu Versalhes. Durante duas noites de agonia, Luís XVI e Maria Antonieta ficaram sitiados com os filhos, vários nobres e uns poucos guardas. Aos gritos, a multidão exigiu a presença da rainha no balcão do palácio. Quando ela apareceu, sua figura altiva acalmou um pouco os ânimos. Mas a família real acabou aceitando as reivindicações do povo: aceitou abandonar a “ilha da fantasia” de Versalhes e se estabelecer em Paris.

A Assembléia Nacional exigiu então que o rei governasse com uma câmara de representantes do povo. Mas Luís XVI não aceitava dividir o poder. Em junho de 1791, ele e a rainha tentaram fugir da França, mas foram pegos e levados de volta a Paris. Sem alternativa, passaram a esperar ajuda da nobreza de outros países. Maria Antonieta manobrou nos bastidores para que seus parentes atacassem a França. A Assembléia Nacional acabou facilitando: como queria expandir a revolução pela Europa, ela deu apoio para que Luís XVI declarasse guerra contra a Áustria. Auxiliadas pela Prússia (hoje parte da Alemanha), as forças inimigas invadiram o país e ameaçaram marchar sobre Paris se a família real sofresse algo. O fato foi visto pelo povo como sinal de que Luís XVI era um traidor.

Em 20 de setembro de 1792, as forças francesas detiveram os invasores. No dia seguinte, a república foi proclamada e a família real foi presa. O ódio contra a nobreza atingiu o ápice. Uma das melhores amigas da rainha, a princesa de Lamballe, foi linchada. Enfiada na ponta de um pedaço de pau, sua cabeça foi levada até a janela da cela de Maria Antonieta, que entrou em pânico e desmaiou.

Em janeiro de 1793, Luís XVI foi guilhotinado. Isolada na prisão, Maria Antonieta passou a vestir apenas preto. Foi levada a julgamento, acusada até de incesto com o filho mais novo. O processo não trouxe qualquer evidência concreta contra Maria Antonieta. Quando o júri exigiu uma explicação sobre o incesto, a ex-rainha gritou: “Se não respondi, foi porque a natureza se recusa a responder tal acusação feita a uma mãe. Apelo às mães aqui presentes!” Foi o único momento em que o público protestou em sua defesa. Condenada à morte, Maria Antonieta viveu um papel que não combinava com ela, o de vítima. Em 16 de outubro de 1793, foi guilhotinada em praça pública.















Filme: Sofia Coppola "Marie Antoinette"




Maria Antonieta tem em sua trilha sonora bandas como New Order, Air e Gang of Four e os tons pastel que tingem as roupas e os cenários são os mesmos dos confeitos que a corte consome; a linguagem é casual.

A diretora Sofia Coppola quer porque quer, enfim, deixar claro que esse não é um filme "histórico" ou "de época" sobre a arquiduquesa austríaca que, entregue aos 14 anos em casamento ao príncipe francês Luís XVI (15 anos, obeso e passivo), viria a simbolizar todos os males do ancien régime e, na visão de alguns estudiosos, servir de estopim à Revolução Francesa de 1789

Filmes históricos são aborrecidos e distantes, justificou Sofia em diversas entrevistas, ao passo que o seu seria uma interpretação pessoal da trajetória de uma menina obrigada a sobreviver sozinha no ambiente hostil e sufocante da corte francesa. Famosamente, Maria Antonieta (no filme, Kirsten Dunst) encontrou um expediente para facilitar sua vida: seu dom para inventar e ditar moda.

Calcula-se que ela gastava, por ano, o equivalente a 7 milhões de dólares em seus vestidos impossíveis. Era o dobro do que o orçamento do estado alocava para esse fim, e muito menos do que ela desperdiçava ainda em diamantes, jantares, penteados pouf e na manutenção de seu retiro pessoal, o Petit Trianon. O filme faz jus à obsessão da rainha, nos figurinos da excelente Milena Canonero e nos sapatos encomendados a Manolo Blahnik.

E, em mais uma demonstração de como a tática de Antonieta funcionava (a seu favor e contra ela), muita gente caiu no conto de Sofia – a começar pela imprensa francesa, que vaiou em peso o filme no último Festival de Cannes. Mas não é o caso de se deixar enganar. Maria Antonieta é, sim, um filme "histórico".


Não apenas pela fidelidade com que adere à biografia da rainha que lhe serve de base, lançada em 2001 pela inglesa Antonia Fraser (e disponível no Brasil pela Record), como no jeito sem-querer-querendo com que evoca o culto obstinado ao ócio e à artificialidade de um estado que se havia divorciado escandalosamente das pessoas às quais deveria servir. Maria Antonieta é, de certa forma, a biografia de uma vida inútil. E é também, como nos filmes anteriores de Sofia, As Virgens Suicidas e Encontros e Desencontros, a história de uma jovem que não tem nenhum poder sobre si mesma.