sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Fishtank


Fish Tank trata da paixão de uma adolescente de 16 anos por seu candidato a padrasto, e a música preferida do personagem é "California Dreamin'", na voz de Bobby Womack. Fica difícil não pensar na sinistra coincidência, agora que veio a público a intimidade incestuosa de John Phillips, líder da banda que compôs a canção, The Mamas & The Papas.

Rodado em Essex, na Inglaterra, Fish Tank volta aos conjuntos habitacionais impessoais que já serviam de cenário em Marcas da Vida. O tal fã de Womack é Connor (Michael Fassbender), namorado novo da mãe de Mia (Katie Jarvis). No país de Simon Cowell, todo adolescente se acha um pouco estrela, e Mia treina muito para que sua dança a leve para outro lugar. Quando Connor se mostra entusiasta dos sonhos de Mia, a coisa já começa a complicar.

Os aquários do título estão, figurativamente, por todos os lados: no cubículo com paredes azuis que Mia invade para dançar break, na ação que a câmera captura pelo buraco retangular da parede, nos videoclipes abastados de hip hop que passam o tempo todo na TV. A vida é um claustro quadrado em Fish Tank.

E essa visão pessimista de mundo - não dá pra dizer reducionista, porque a própria proposta do filme é trabalhar com a redução como sufoco - não dá descanso. Em sua história de formação ( como em tantas outras típicas passagens da adolescência à vida adulta, como o recente À Deriva), Mia descobre o sexo, se desilude com o mundo dos adultos, cai na realidade de que nem todo garoto de sua idade é do mal, e, finalmente, encara o risco da morte de perto.

O filme não parece ter muitos atrativos, a princípio, e não tem mesmo, afinal, a realidade não é sempre atraente e esse filme é um recorte, um momento real. Andrea Arnold se baseia na British New Wave, movimento cinematográfico nascido nos anos 50 que se espelhava na Nouvelle Vague Francesa e sobreviveu, em sua maior parte, na televisão através de programas como Coronation Street e Eastenders. Por falar do cotidiano dessa classe menos favorecida da Inglaterra, a esse movimento também se deu o nome de Kitchen Sink Drama (tradução literal drama de pia de cozinha).
Mia é a típica personagem principal dos KSD, uma anti-heroína, não satisfeita com a sua vida e com o mundo ao ser redor. Ela se protege desse mundo, bebendo tudo que encontra, brigando e soltando muitos palavrões. Isso é, até a chegada de Connor, o novo namorado da mãe que, ao demonstrar o mínimo de afeto pela garota, acaba descobrindo seu outro lado, uma menina carente de quem, dando um pouquinho de atenção, ele pode conseguir tudo.
É essencialmente o que eu caracterizo como filme de ator, cuja força se encontra nos personagens muito bem escritos e bem interpretados principalmente por Katie Jarvis, que vive Mia, e Michael Fassbinder, como Connor. Não se assuste se seu dvd vier em formato 3×4, esse foi o formato escolhido pela diretora para passar ao público a claustrofobia do ambiente limitador em que Mia vive.
 









 
 

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