sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres


Um filme como Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres perpetua a aura do compositor popular mais amado na França dos anos 60, Serge Gainsbourg, o feioso que de tanto charme ficou com muitas mulheres entre elas Brigitte Bardot, Juliette Gréco e Jane Birkin.

Direção de Joann Sfarr. Com Eric Elmosnino, Lucy Gordon, Laetitia Casta,  Doug Jones, Sara Forestier,Anna Mouglalis, Yolande Moreau, Claude Chabrol. 130 min.
Não vá imaginar que esta é uma biografia tradicional com fidelidade aos fatos. Nem pensar, este é um dos filmes mais inventivos já feitos sobre a vida de alguém, ao mesmo tempo uma maneira de retratar o espírito de um artista, sua criatividade. Mas também um modo de driblar a dificuldade de falar sobre um sujeito que era assumidamente bissexual, drogado, irresponsável e fascinante.

Uma pena que aqui no Brasil não conheçamos muito bem a obra de Serge Gainsbourg, mais lembrado por ter composto a canção Je T´aime Moi Non Plus (fez para Brigitte Bardot, que não quis deixá-lo lançar e ele refez com sua mulher a atriz inglesa Jane Birkin, revelada em Blow Up e com quem ele ficou 22 anos). Aliás, ele dirigiu em 76 um filme com Jane que levou o nome da canção no original e aqui Paixão Selvagem, que era intensamente andrógino e gay.

Depois de imortalizar dois de seus maiores ídolos musicais, falta apenas ao cinema francês realizar um filme sobre o chansonnier Charles Azsnavour, já que Atirem no Pianista não é propriamente uma cinebiografia. Se Piaf – Um Hino ao Amor se concentrou nos fatos trágicos de Edit e na potência dramática de sua música, Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres é um filme sobre a atmosfera de criação e representação do mundo – e do amor – na obra de Serge.

Como ilustra o letreiro que surge nos créditos finais, atribuído ao diretor Joann Sfar: “Eu amo demais Gainsbourg para trazê-lo à realidade. Não são as verdades em torno dele que me interessam, mas suas mentiras”. Por não ser do cinema e sim um quadrinista, Sfar permitiu que sua cinebiografia tomasse certas licenças poéticas que a posicionam fora de um registro realista. Este é o pulo do gato.

Aliás, seria um erro continuar citando Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres como uma “cinebiografia”. Um conto, como sugere o diretor quadrinista, é mais apropriado. Trabalha-se numa mistura do passado com o presente, de vozes reais com projeções subjetivas. Fatos? Isso fica para uma matéria jornalística, pois este filme propõe sentir Gainsbourg, não entendê-lo.

Sfar recorre a uma composição pictórica do quadro. Há uma belíssima manipulação da cor e luz, além da maneira em como elas incidem sobre os objetos ou personagens em cena. A infância do compositor na França sob ocupação nazista é traduzida pelo modo em que o menino, então aspirante a pintor, representava o mundo e as musas desnudas: entre o tom pastel e alaranjado, quase num crepúsculo duma tarde de outono.

A noite é azulada. O cigarro que não desgruda dos lábios ou dos dedos do compositor é quase um personagem à parte no filme. Tudo em Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres é idealização ou projeção. Mas como pedir um registro ultrarrealista de um filme sobre um personagem que escreve uma canção-orgasmo como
Je t'aime... moi non plus? Não adianta acusar o filme de "surreal" ou "não recupera o legado musical do artista":

Se o conto cinematográfico de Sfar é fiel a algo, este algo é a música. Faz-se um arco do estilo inicial de chanson para o rock dos anos 60, desembocando no jazz, no reggae e no eletrônico. Aliás, impagável a sequência em que Gainsbourg, já na Jamaica, canta Aux Armes et cetera, versão em reggae para A Marselhesa da França.

Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres é uma divertida mentira que traz para a tela todos os alter-egos do compositor, da infância à velhice, do atrevimento juvenil ao alcoolismo dos trabalhos derradeiros. 











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