segunda-feira, 6 de junho de 2011

Filme: Melancolia (Melancholia) 2011



O tempo só serviu para afastar as irmãs Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg). Nem o casamento entre Justine e Michael (Alexander Skarsgård) serve como desculpa para aproximá-las e, depois da cerimônia, Justine começa a ficar triste e melancólica. Quando o anúncio sobre a colisão da Terra com outro planeta chega ao conhecimento, as reações são bem diferentes. Justine está conformada, enquanto o desespero do iminente fim apavora Claire.

O cineasta dinamarquês Lars Von Trier esteve em Cannes apresentando seu mais novo longa “Melancholia” estrelado por Kirsten Dunst (franquia “Homem-Aranha”) que concorre ao prêmio Palma de Ouro.

O filme conta a história de uma noiva, interpretada por Dunst, que após o casamento mergulha em um estado avançado da depressão. O diretor faz uma metáfora entre o problema mental da personagem com o fim do mundo, colocando no enredo a existência de um planeta chamado Melancholia que está prestes a colidir com a Terra.

O filme foi bem aceito pela crítica e poderia ter uma passagem consagradora pelo Festival, porém, se as palavras de Von Trier não estivessem estragado tudo. O polêmico cineasta cometeu muitas gafes durante a coletiva de imprensa, deixando escapar que a atriz interpretou bem esse papel porque já teve depressão e ainda foi infeliz ao dizer que simpatiza com Adolf Hitler.

Tentando concertar o erro o cineasta acabou se confundindo e no final da entrevista sua assessoria de imprensa disparou uma nota esclarecendo que Von Trier não é antissemita e que não tem nenhum tipo de preconceito racial. Mesmo assim o brilhante diretor não foi poupado das críticas.

Dois anos atrás, o bad boy de Cannes, como a mídia o descreveu, trouxe na mala o horroso Anrichrist e  foi o assunto do festival. Testemunhos de gente que passou mal, que desistiram no meio, contracenavam com as críticas fanáticas que o defendiam e o denegravam. Existiam idéias e teses nele, mas era tudo ofuscado pelo show de horrores dos rituais macabros e masoquistas que um dos personagens sofreu.

Com três sessões de exibição, as primeiras duas ficaram completamente lotadas, com uma fila de espera enorme para quem tinha esperanças de desistências.

Filmou algo novo e, como tal, provou que é realmente um "auteur". Melancholia é um filme sobre o fim do mundo. Mas não como você viu antes. Começa com um sequência vertiginosa, e em seguida se divide em duas partes. A primeira nos mostra a festa de casamento de Kirsten Dunst, uma executiva de publicidade que sofre de depressão e tem uma família bem, digamos, complicada.

John Hurt é seu pai, Charlotte Rampling sua mãe, Charlotte Gainsbourg (que levou prêmio de melhor atriz em Cannes por sua interpretação em Antichrist) como sua irmã e Kiefer Sutherland como o cunhado. Todas as performances estão boas, embora o roteiro não trate Sutherland muito bem. É interessante ver que Dunst, após garantir uns milhões na conta bancária com a trilogia do Homem-Aranha, está se arriscando cada vez mais. No meio do filme, após o término da festa, a personagem nota um estranho objeto celeste. Na segunda parte, jah é constatado que este estranho objeto é um planeta novo, que, escondido atrás do sol, passara desapercebido pelos astrônomos. O planeta, chamado Melancolia, está numa possivel trajetória de colisão com a terra, e é enquanto os personagens aguardam o veredito sobre o fim da vida na terra que o filme ganha força.

O filme é apocalíptico, mas ele nos mostra isto somente através de 4 pessoas: Dunst, Gainsbourg, Sutherland e o filho do casal, que estão habitando a mansão de Gainsbourg e Sutherland. Em momento algum vemos imagens de outros locais no planeta ou mesmo trechos de telejornais para nos guiar. Enquanto o filme começa lotado de gente (na extensa festa de casamento) ele termina focado nestas poucas pessoas. É um filme que evoca suas questões poeticamente, nunca explicitamente: vale a pena nos salvarmos? O que acharíamos do fim? Como vamos encarar o fim do mundo? Repito, seria fácil ele concluir que nos comportaríamos como animais selvagens e chocar, mas ele abandonou as caricaturas e tratou, neste filme, de pessoas reais.

Devemos tratar da fotografia, o ponto mais forte do filme. Parece que Von Trier abandonou completamente suas regras do Dogma pois, nos 10 minutos iniciais, que todos os críiticos devem mencionar, assistimos seis ou oito composições de câmera que usam tilt-shift, super slow-motion e até computação gráfica. Lars von Trier seria o último diretor de quem eu esperaria ver uma cena espacial com o planeta Terra. O filme é uma maravilha de se ver. Lindo, lindo, lindo. Ele optou sempre pela câmera na mão, mas invés de planos sequência usa cortes rápidos. O foquista, coitado, deve ter penado, pois mesmo no produto final a transição entre um ponto focal e outro às vezes é bem perceptível. Alguns podem ficar um pouco tontos com tanto movimento de câmera, mas pra quem já conhece, vai dar tudo certo.

É também um filme bem feminino, que deve dar ao diretor um pouco de distração das inúmeras acusações de misoginia que ele sempre recebe. Na verdade há até um contraste duro entre os homens e as mulheres no filme, mas dizer muita coisa revela spoilers da trama. Fica pelo menos a dica, de que o diretor consegue mesmo transitar neste mundo menos agressivo. Mas o título dá uma dica: é um filme emotivo, como a propria melancolia, mas não é nem histérico nem controverso. Pode ser que muitos dos que vieram vê-lo com um apetite pelo sanguinário saíram desapontados, mas os que buscam uma meditação técnica e artisticamente brilhante sairão satisfeitos.

Elenco: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Charlotte Rampling, John Hurt, Alexander Skarsgård, Brady Corbet, Stellan Skarsgård
Diretor: Lars von Trier
Duração: 130 min.
Ano: 2011
País: Alemanha/ Dinamarca/ França/ Itália/ Suécia
Gênero: Drama




Um comentário:

R * disse...

Filme lindíssimo.

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