quarta-feira, 8 de junho de 2011

Desejo e Obsessão - Trouble Every Day


Shane (Vincent Gallo) e June (Tricia Vessey) casaram-se recentemente e estão em plena lua-de-mel em Paris. Shane é um homem atormentado por ter um grande apetite sexual e, por causa disto, decide procurar seu velho conhecido Léo Semeneau (Alex Descas), um médico com quem trabalhou em experiências sobre a libido humana. O Dr. Semeneau está atualmente à procura de Coré (Béatrice Dalle), sua esposa, que era mantida presa no quarto mas fugiu recentemete. Shane decide ajudá-lo e acaba encontrando-a, agachada sobre um rapaz ensanguentado e cheio de mordidas.

Perto de Desejo e Obsessão, 9 Canções é fichinha. Enquanto o longa de Michael Winterbottom exibe uma noção vaga e etérea de um relacionamento movido a sexo, Claire Denis opta pelo obscurantismo ao mostrar a consistência de um amor carnal pesado, doentio. Se o assunto gera inúmeras possibilidades e leituras, evidente que o que difere uma diagramação de outra é o percurso a se seguir dentro do campo dessa sexologia filmada. E, nesse caso, Denis não faz concessões no seu road body lento e indigesto de conotações bem cáusticas.

Apesar de se confundir com alguns congêneres por causa do tabu de sua temática, Desejo e Obsessão é quase o oposto dos frutos de Larry Clark e Catherine Breillat. Estes últimos fazem filmes meramente pra chocar, e colocam o sexo como um fim em si mesmo. Nesse outro filme os meandros são mais dúbios e as motivações dos protagonistas muito mais dialéticas e perturbadas. Pela própria construção da narrativa o entendimento fica mais tortuoso, descartando possibilidades simplórias de análise que os anteriores em comparação permitem.

A complexidade de Desejo e Obsessão já começa por sua linguagem cinematográfica. Uma cena não prepara o espectador nem dá indício algum da cena posterior, tampouco serve de resposta à cena anterior. O desencadeamento dos fatos é desconexo. Não se trata de construção em flashback; é ruptura da ruptura mesmo. O filme é todo fragmentado, inclusive na mescla de gêneros e estilos.

Ora permeia por um certo erotismo, ora faz um olhar mais compenetrado no rosto dos personagens e, em alguns instantes, parece até filme de terror. Apesar de constantemente misturar períodos tensos e períodos lassos, o filme não dá brechas a descansos e descarta qualquer possibilidade de sossego.

Embora seja um filme órfão, que não dá pra ser incluído em nenhum tipo de escola cinematográfica. Denis, é bem respeitosa. Há sim um voyeurismo, mas numa latitude paradoxalmente próxima e distante do objeto.

Desejo e Obsessão é, em princípio, um filme anatômico. Suas lentes não se furtam de observar as curvaturas dos corpos e suas reentrâncias. A vagarosidade da câmera, ritmo inversamente oposto ao frenesi psicológico dos personagens, causa ao espectador uma sensação miscigenada de sadismo e conivência. O percurso epidérmico serve de metáfora para um questionamento maior em torno das angústias dos protagonistas.

De desejo há muito pouco. O filme é todo calcado na consciência da culpa. É como se Eros e Thanatos estivessem um de frente pro outro, colocando na tela o conflito dilemático entre a libido e a tortura. Embora se mantenha num ritmo pouco espetaculoso, o filme não deixa de exibir em tom alegórico esse prazer lúgubre. Aqui, o público tem uma noção bastante concreta das acepções e conotações que o verbo "comer" pode acarretar.

É no ato sexual que aparece a vontade antropofágica dos personagens. É como se a câmera estivesse preparando a carne dos corpos, mas quem se sente seduzido não é o público. É o próprio filme o protagonista do momento de abate. Se Denis não fez o filme apenas para agredir os olhos, por outro lado seu fetichismo auto-destrutivo surge como um novo elemento de visão de mundo irônica e pessimista.







Nenhum comentário:

Postar um comentário